Entrada de voz: 30 dias sem teclado

Entrada de voz no computador: teclado coberto de pó e microfone de estúdio

Sou aquele chato que instalou um KeyCounter no portátil «só por curiosidade». Passado um mês a usar o Commander Flow abri-o e olhei para os números — as teclas premidas caíram várias vezes. E isto apesar de o volume de trabalho ter aumentado: peguei em dois clientes novos e comecei a manter um blog em inglês.

Não chamaria a isto uma «análise tecnológica». São antes as observações de uma pessoa que, a certa altura, deixou de reparar que estava sequer a escrever.

Oito passos que não dou mais

Cada vez que precisava escrever um e-mail para um cliente sem erros, fazia isto:

Alt+Tab → Word → rascunho → seleccionar → Ctrl+C → Alt+Tab → Gmail → Ctrl+V → afinar

Agora: ponho o cursor no Gmail, mantenho o atalho premido, falo como penso, largo. Um segundo depois aparece no campo um parágrafo coerente, sem «hum», sem «pronto», sem espaços duplicados, com a maiúscula correcta e o ponto final no sítio. O parágrafo que eu demoraria cinco minutos a editar surge já feito.

«Não escrevo mais depressa. Simplesmente não escrevo.»

O que reparei ao fim de um mês

AS MINHAS TECLAS PREMIDAS NUM MÊS ANTES o volume habitual de escrita DEPOIS várias vezes menos — sem reduzir o volume de trabalho
O volume de trabalho não diminuiu — os dedos é que deixaram de bater.

Faço o registo de segunda a sexta. Eis as mudanças mais marcantes:

  • Emails a clientes: visivelmente mais rápido — o que antes ocupava boa parte da manhã despacho em uns dez minutos
  • Conversas no Slack/Telegram: já não fico «agarrado» aos chats durante muito tempo — as mensagens curtas saem em segundos
  • Notas durante chamadas: escrevo tanto quanto antes não conseguia
  • Respostas no YouTube/Reddit: antes — nunca. Agora — quanto quiser.

Somando tudo, recupero uma fatia considerável do dia — antes ia para escrever. Peguei nela e fui devolvendo-a, aos poucos, ao meu projecto pessoal mais importante, que andava a adiar há anos.

Onde funciona melhor (o meu top-3)

voz Gmail · estilo formal Slack · friendly Obsidian · notas Telegram · curto UM ATALHO → QUALQUER APLICAÇÃO
A mesma voz — quatro estilos diferentes, sem trocar de janela.

O que mudou mais foram os emails longos — aquilo que eu mais detestava no trabalho. Dito como quem explica a um amigo, peço por voz o estilo formal e fica um texto que o meu contabilista comentou recentemente assim: «começou a escrever de forma mais sólida, arranjou um copywriter?». Não. Falo apenas para o microfone.

A seguir vêm as threads de Slack em inglês. A minha língua materna é o português e, antes, cada mensagem para a equipa internacional custava-me uma tradução interna. Agora falo em português, peço friendly-English — e em segundo e meio o texto vai para o chat. Em meio ano nenhum colega desconfiou.

Caso particular: notas durante uma chamada. Estou de auriculares com microfone, entre as frases do interlocutor mantenho a tecla premida e dito rapidamente: «combinámos quinta-feira, confirmar orçamento com a Maria». O texto cai no Obsidian já formatado, sem ter de mudar para a aplicação de notas.

O que me irrita

Não é perfeito. Três coisas que ainda apanho de vez em quando:

A primeira tentativa após muito tempo parado — às vezes falha. Se passei várias horas sem ditar, a primeira vez que carrego no atalho pode «perder» o início da frase. No build mais recente melhorou bastante, mas ainda apanho um caso ou outro. A solução é dizer uma palavra de teste assim que volto ao portátil. Um ritual de um segundo.

Café muito barulhento. O detector de voz corta bem as pausas, mas se há gargalhadas altas na mesa do lado pode acrescentar um «ahã-ahã» extra ao princípio. Mudo para push-to-talk e fica resolvido.

O primeiro arranque depois de instalar. A aplicação descarrega componentes para funcionamento offline. Em internet lenta nota-se. Acontece uma vez na vida — dá para aguentar.

Coisas que deixei de fazer

  • Não corrijo erros tipográficos. Não há.
  • Não troco o teclado. Falo em qualquer língua e peço o polimento em qualquer outra.
  • Já não me lembro onde está o «ç» (provavelmente nem o usava muito).
  • Não abro serviços online de paráfrase. Está tudo local.

TL;DR para quem chegou aqui em scroll

O Commander Flow não é uma «cena gira para nerds». É subtrair ao seu dia uma das actividades mais cansativas — escrever — sem perder qualidade no texto. Em um mês o meu teclado ficou fisicamente coberto de pó na fila dos números — antes não acreditaria.

Os contras existem, mas estão na categoria «só dou por eles porque profissionalmente caço bugs». Para o utilizador comum, são invisíveis.

Há um mês, se me dissessem «daqui a 30 dias vais escrever uma vez e meia mais e os dedos vão trabalhar uma vez e meia menos», não acreditaria. Mas é exactamente assim que isto funciona.

Perguntas frequentes sobre entrada de voz

O que é o Commander Flow e para que serve?

É uma aplicação de desktop para Windows que transforma a voz em texto pronto em qualquer campo activo — email, chat, documento, IDE. Reconhece a fala, remove muletas linguísticas, coloca a pontuação e insere o resultado onde está o cursor. Serve tanto para mensagens curtas como para emails e notas longas.

A entrada de voz funciona sem internet?

Sim. Por defeito, todo o processamento decorre localmente, no seu computador: tanto o reconhecimento de voz como o polimento do texto. Não é necessária internet para arrancar nem para o trabalho do dia-a-dia. É a diferença chave em relação a serviços de cloud como o ditado integrado no browser.

Qual é o atalho por defeito?

Caps Lock — a tecla menos usada em qualquer teclado. Mantém-se premida, fala-se, larga-se — o texto aparece no campo activo. Se o Caps Lock não for prático, qualquer outro atalho fica configurado num clique nas definições.

É adequado para a língua portuguesa?

Sim, o português é totalmente suportado, incluindo discurso misto português-inglês. Ao todo são reconhecidas 25 línguas, com mudança entre elas por voz ou nas definições.

Quais são os requisitos de hardware?

Um portátil moderno com 8 a 16 GB de RAM chega para a maioria dos modos. A placa gráfica não é obrigatória, mas se existir a aplicação usa-a automaticamente. Em máquinas mais antigas funciona o modo «Leve», com requisitos reduzidos.

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